Quando perdemos alguém muito próximo, além do luto inerente a essa perda à uma nova aprendizagem da vida, pois ela deixa de ser igual ao que sempre foi. Somos confrontados com novas realidades, desafios e somos abordados pelas mais variadas pessoas na procura de nos auxiliar nestes momentos tão crus e duros.
A morte é seguida pelo luto, que é um estado mental. Ponto. Mas habitualmente é transformado em regras e normas sociais que nos impõem ou nos auto impomos.
A cor favorita da minha mãe era o amarelo. Fazia-a feliz. E no momento de escolher a sua última roupa não duvidei um segundo. Nas celebrações fúnebres, os familiares mais imediatos foram vestidos de amarelo.
E aqui começou o maldizer.
Morbidez ou não, sempre foi uma conversa que tive com a minha mãe de como queríamos que fosse o nosso funeral. Era uma conversa que o meu pai e avó detestavam, mas que provou-se bastante útil na hora de decidir algo. Uma das coisas que a minha mãe sempre me disse e me influenciou uma vez que partilho da mesma opinião, é que a cor da minha roupa ou maquilhagem não reflectem de todo o sentimento que nutro por alguém. Ambas gostávamos de vestir preto, mas jamais por luto a alguém. O luto faz-se nas acções e não na roupa. Pelo menos foi assim que ela viveu a pensar e eu continuo a acreditar.
Por isso, o amarelo era a escolha lógica e absoluta. Aquele dia, um dos dias que ainda está tão baralhado na minha mente tal é a dureza das recordações, era para me "despedir" da minha mãe. E nada melhor do que usar a sua cor favorita.
Naqueles dias ninguém ousou dizer nada directamente, mas passados dias começaram os sussurros do uso do amarelo e como ninguém em casa usava o preto completo. Ninguém lhe fazia o luto.
Não me incomoda mas impressiona-me.
Nunca tinha perdido ninguém que amasse verdadeiramente antes e a primeira pessoa que perdi foi uma das pessoas que mais amava. Arrancaram-me um pedaço da alma e as pessoas estavam preocupadas porque eu vestia jeans e t-shirt branca? Sério?
Acharam mal por usarmos amarelo e não nos vestimos todos de preto?
A hipocrisia sempre foi dos males que mais me perturbou mas quando se alinha com maldade fica algo indescritível.
Aprendei nestes dias, mais uma vez, que nada que possamos fazer vai ser percebido e aceite por todos e assim, mais vale viver de acordo com o que acreditamos a viver uma vida miserável a seguirmos as regras dos outros.

