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terça-feira, 22 de agosto de 2017

O pesadelo da normalidade

Voltar ao normal quando a nossa vida foi dilacerada é um dos maiores desafios que pudemos enfrentar. 
Além da consciência plena que nunca nada será igual, a necessidade de viver e seguir em frente é vital para não me afogar na mágoa. Mas é difícil, tão difícil. 

As trivialidades da vida, que sempre me apaixonaram por darem um brilho especial à dificuldade que muitas vezes temos para continuar, não passam disso. Trivialidades, cinzentas e ocas, sem interesse e substancia. 
Tudo parece muito pequeno vazio, face ao sofrimento dilacerante que oculta os meus dias. 

Por isto, estou calada. Por isto, não tenho feito nenhum post no blogue e as poucas publicações nas redes são distantes e também elas, por vezes, cinzentas. 

O pequenas vontades não foi criado para ser triste. Foi criado para eu partilhar as minhas vontades mais brilhantes, algumas mais intensas, mas sempre com um discurso leve e descomprometido da seriedade da vida, uma extensão da minha visão. A vida é séria mas se a olharmos de uma forma divertida e a relativizarmos, tudo se torna mais fácil.

Hoje, depois de quase três meses mergulhada num mundo sem cor ou sentido, começo a voltar a mim. Não ultrapassei, acho que jamais o conseguirei fazer. Há momentos de profundo pesar e raiva. Dói. Demais. 
Mas hoje já consigo ver o que vem depois, consigo ouvir o discurso que tantas vezes me deu onde sempre disse que a vida é para ser vivida alegremente, mesmo nos maus momentos e que o meu sorriso era uma das suas maiores alegrias.

Segunda-feira tudo vai voltar ao normal no blogue. Looks da semana, séries e livros, dúvidas, moda e beleza. 
Sinto que tenho de me esforçar a voltar a fazer aquilo que me traz um sorriso, aquilo que faz brilhar a vida. Preciso disso para voltar a encontrar uma felicidade, diferente, mais ainda assim, felicidade. 

Quero agradecer a todas as mensagens, e-mails e comentários. Vocês são as melhores.




quinta-feira, 9 de junho de 2016

Lutas da POC #3


Uma doença, qualquer que seja, é sempre um peso enorme não só para quem a tem, mas para aquelas pessoas que a rodeiam (e que se importam).

Para o doente é algo muito pessoal, que falarei em qualquer outro dia, mas para aqueles que nos rodeiam pode ser uma prova dura de ultrapassar. Porque ora bem, a doença não é propriamente deles, logo não sentem o que o doente sente, muitas vezes nem percebem. No entanto conseguem sentir algo bastante poderoso, a impotência. Na grande maioria das doenças não há nada que os "outros" possam fazer, só esperar.
Cada um reage como sabe e pode, no meu caso, os meus três grandes pilares reagiram de maneira completamente diferente entre eles. 
Partindo do principio que todos se informaram do que era a POC temos as seguintes reacções:

A minha mãe, desvaloriza. Tenta relativizar qualquer crise, enchendo-me de assuntos e pequenos trabalhos para me distrair. Quando se apercebe que o meu estado não é o melhor, liga-me 50 vezes por dia com os assuntos mais remotos que consegue arranjar, sem nunca tocar no verdadeiro porque do meu estado.

O meu pai, panica. Basta estar mais apática, que pergunta-me 1250 vezes o que tenho, como me sinto, se preciso de alguma coisa, o que quero fazer. No fundo é um estado de solidariedade completa, se estou mal ele fica também.

O meu namorado, absorve a doença. Dos três foi o que fez a pesquisa mais profunda. Leu tudo o que conseguia e não me parou de fazer perguntas sobre o que sentia. Sabe detectar o meu estado apenas pela minha voz e não vale de nada tentar disfarçar. No meio de uma crise, faz da doença não a minha, mas a nossa. No entanto é também o mais implacável. Não há mimimi que lhe resista, com ele é reacção.

São realmente diferentes, mas são as pessoas que me ajudaram na pior altura, que me levantaram e que todos os dias me ajudam a ultrapassar esta visitante. Sem esta força, sem este acreditar a luta teria sido muito mais dura e complicada.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Lutas da POC #2


Gosto muito de cozinhar. O tempo que passo na cozinha a confeccionar os pratos que mais gosto é sempre um dos preferidos do dia. Mas sou um caos na cozinha. Porquê? Porque utilizo todos os utensílios a que tenho direito (um recipiente para cada alimento, nada de misturar), uso 50 colheres para provar um molho (isso de lavar e utilizar a mesma colher parece-me tão pouco higiénico) e lavo tudo ao extremo. Não sendo assim tão adepta de carne, o meu dilema são mesmo os vegetais e frutas. Eu adoro tudo o que a terra nos dá. Apenas não como beterraba porque sou alérgica e pêra porque odeio a textura. Tudo o resto adoro de paixão. A piada (not) está na forma como preparo tudo. Por exemplo, comer uma simples laranja é uma tarefa complexa. Primeiro lavo a casca da laranja, sim, porque não sei onde a laranja andou até chegar cá a casa. Descasco-a. Agora faço uma pausa para lavar as minhas mãos. Porque descascar uma laranja deixa-nos com uns sucos estranhos entre as unhas que têm de ser rapidamente limpos antes de secarem e ficarem uma meleca ainda maior. Depois de lavar as mãos, parto a laranja nos devidos gomos, tirando todos fios que lá estiverem. Lavo as mãos. Como a laranja. Lavo as mãos.

Outra coisa engraçada, e esta acho que é mesmo só mania (ou tento convencer-me que é), é o facto de literalmente puxar o lustro à fruta e vegetais antes de os comer ou confeccionar. Pois pego no meu paninho é vá de limpar até ficarem a brilhar.
Claro que hoje faço isto de maneira tão automática e própria que ninguém que me conhece dá muita importância, é simplesmente a minha maneira de fazer as coisas. Claro que há sempre uma amiga ou prima que implica um pouco, mas na minha cabeça não outra forma de fazer as coisas. 
Não ter tudo devidamente separado e limpo, muito limpo, é razão para os meus níveis de ansiedade subirem em flecha. Começo a imaginar os cenários catastróficos que podem ocorrer se as coisas não forem executadas à minha maneira, pelo menos quando sou eu a fazer as coisas.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Lutas da POC #1


Não me recordo de mim sem ter "manias". A verdade é que a parte maior do meu sofrimento com este transtorno vem das obsessões, estas sim são capazes de me derrubar. As compulsões são mais uma consequência. Algo que eu tento não fazer, mas que a Poc leva a melhor, quase sempre. A maior de todas é sem dúvida lavar as mãos. Eu sempre fui obcecada por lavar as mãos. Os meus pais contam que por volta dos 4/5 anos, se desaparecia por um segundo estava decerto a lavar as mãos. Deve ser por isso que gosto tanto de sabonetes.

Lavar as mãos acalma-me, relaxa-me, alivia-me. É a primeira coisa que faço quando acordo, quando me deito, quando saiu de casa, quando chego a casa. É por esta necessidade que detesto tocar em pessoas e objectos desconhecidos. Não quero dizer que sou daquelas pessoas que não tocam as outras. Bem, quer dizer isso mesmo. Se não conhecer a pessoa não a vou cumprimentar se puder evitar. Se for com os típicos beijinhos onde mal nos tocamos ainda consigo assentir, agora apertar a mão a alguém é uma batalha mental de proporções épicas. Eu não sei onde a pessoa andou com as mãos. Talvez tenha tossido. Talvez tenha colocado o dedo no nariz. Talvez tenha coçado o ouvido ou colocado o dedo em sítios menos próprios. Ou pior, pode estar suado. Tudo o que consigo imaginar naqueles milésimos de segundos me faz arrepiar e desejar sair a correr para dar uma lavagem de precaução nas minhas preciosas mãos. Mas os meus pais educaram-me bem e as vezes tenho de me sacrificar. Mas mal as mãos se tocam começo a fervilhar de ansiedade. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. É assim que a minha cabeça começa a funcionar.
É claro que isto já me condicionou em algumas situações, algumas mais graves que outras. Lembro-me de uma vez na faculdade, num exame, onde passados meros 15 minutos depois de começar, ao colocar-me numa posição confortável, toquei em algo colado na borda da mesa. É claro que quando vi que era uma pastilha acho que até perdi o ar. Pedi encarecidamente ao meu professor para me deixar ir lavar as mãos, mas ele apenas olhou para o meu gel desinfectante (BFF ❤) em cima da mesa e deu-me um redondo "Não" como resposta. É assim, eu adoro gel desinfectante, mas não é a mesma coisa. Nada substituí água e sabão. Nada.
Conclusão, entreguei o exame que valia a nota do semestre 15 minutos depois de começar, simplesmente para ir lavar as mãos.
Mas convenhamos, existe alguma coisa melhor que umas mãos lavadinhas e a cheirar a limpo?

quarta-feira, 23 de março de 2016

Filme de semana, Beasts of No Nation



Há filmes que nos deixam sem palavras. Eu fiquei com este filme. 
Sabia que queria escrever sobre ele, mas ficou muito difícil saber como o fazer.

Beast of No Nation não é um filme para todos verem. Não é que não o devam fazer, mas muitas pessoas vão menospreza-lo. Para pessoas que não gostam de violência, de filmes de guerra, de brutalidade não é um filme indicado. Porque este é um filme cru. Duro. Verdadeiro. 
É um murro no estômago em forma de filme. 

A guerra é algo que muitos de nós, felizmente, só têm conhecimento teórico. Sabemos de histórias, de acontecimentos. Ouvimos relatos, mas continuamos a viver, sem pensar muito no assunto.
Este filme torna-se tão poderoso porque, além de ser um relato de guerra, é um relato de uma criança. 
Essa criança que num dia era isso mesmo, uma criança que como qualquer outra brincava e no dia seguinte era um soldado.
Uma criança que viu, fez e sentiu mais terror e sofrimento que muitos de nós vemos numa vida.
E o pior, é que este filme apenas relata a vida de milhões de crianças espalhadas pelo mundo. 

A realização é maravilhosa. Idris Elba (adoro este homem!) e Abraham Attah estão perfeitos. 

É um filme duro. É um filme muito bom. 
A perda da inocência. A criação de monstros. A realidade mais crua. 
Vale tanto a pena.