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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Nós e Eles

Estamos no final do primeiro mês do ano mas já há tanto para falar e comentar. Alguns assuntos secundários e outros, muito mais sérios, estruturais. 
Nestes últimos dias, tenho lido e ouvido muitos diálogos que se sustentam nas dicotomias do"Nós" versus o "Eles".
É um discurso que me enrijece, transtorna. É um discurso para o qual não estou formatada a aceitar. Mas é um discurso comum, partilhado e sobretudo enraizado na nossa sociedade.

Tudo isto começou no episódio no bairro da Jamaica. Sem conseguir apontar dedos e culpas, todo o quadro em torno do episódio em si é assombroso.
Nunca serei uma das pessoas que vai apontar o dedo à lei e aos seus agentes. Mas serei uma das primeiras a dizer que vivemos numa sociedade a duas velocidades ou melhor, a duas cores.
Não sei se o episódio no bairro da Jamaica foi racismo, sei sim que todo o diálogo a seguir foi um exemplo claro daquilo que vivemos e pensamos escondido nas nossas casas. 

Eu e o Eddie não somos da mesma cor. Eu sou uma tom amarelo transparente e ele um caramelo brilhante. Estamos juntos à 11 anos e só me apercebi do racismo real quando comecei a namorar com ele. 
Nestes 11 anos vivemos as mais inacreditáveis histórias no que diz respeito ao racismo latente na nossa sociedade. Em todos estes anos, já ouvi o diálogo onde o "nós" me inclui e o "eles" o inclui e vice-versa.
Há uma clara separação onde as pessoas me colocam e o colocam a ele. Não apenas por eu ser mulher e ele homem, uma conversa para outra e todas as alturas, mas porque a minha pele não é da mesma cor que a dele.
Não vale a pena tentar amenizar a questão, tão pouco o quero fazer. Já me perguntaram como conseguia namorar com um preto e isto resume tudo.
Vivemos numa sociedade muito pequenina em princípios mas enorme em preconceitos que se elevam nestas alturas. Há tanto a fazer mas tão pouca vontade. 
Assim continuamos a falar em picos de popularidade do tema, para não perdermos a onda, mas continuamente a menosprezar a verdade. Somos racistas. 

Somos racistas. Repitam comigo. Somos racistas. 
Depois de assumir é mais fácil evoluir. Continua à espera desse dia. 


quarta-feira, 9 de março de 2016

A palavra mais crua.

Racismo.
É uma palavra que me arrepia. 
Magoa.
Desilude.
Revolta.

Na minha ingénua infância acreditei vivamente que o racismo já não existia. Bem, não era como se tivesse sido irradicado do mundo, mas acreditava que nas gerações mais jovens, muito longe dos laivos coloniais, o racismo não ia ser propagado para o futuro.
Até que me apaixonei por um mulato. 
Dono do melhor sorriso do mundo.
Dono do mais perspicaz e sarcástico humor.
Dono do meu coração há oito anos. 

No dia em que me assumi como namorada do E a minha vida mudou. E nas milhares de coisas maravilhosas em que mudou, houve uma não tão maravilhosa. Nesse momento os meus olhos abriram para uma realidade que não queria ver. Que o racismo existe, em todo o lado.

Já vi olhares de desprezo, já fui abordada na rua por ir de mão dada com um preto, já me perguntaram porque perdia tempo a namorar com um mestiço.
Já fomos seguidos numa loja, já nos menosprezaram em várias lojas, já nos trataram como humanos de segunda (se isso existe).
Mas de tudo, o que mais me choca é que se eu estiver sozinha, com a minha pele clara, ninguém me tratará diferente. Serei bem-vinda a qualquer local, serei bem tratada em qualquer sitio.
Mas ele, um dos melhores seres humanos que eu conheço, é, dia após dia, marginalizado pelo seu tom de pele. Nada mais. Apelas porque não é branco.
De tudo é o que mais me dói. 

Nestes oito anos, nas mais variadas situações, eu reajo. Por muito que o E me diga que não vale a pena, tenho de reagir. Porque por muito que a nossa pele seja de cor distinta, a dor que sentimos é igual. E não consigo admitir que o magoem e maltratem por nada. 
Porque o racismo é nada. É um vazio de nada no intimo de quem o propaga. 

Já gritei, já chorei. E continuo sem entender como nem porque.

Se tudo correr bem, um dia terei filhos com herança genética negra. Com orgulho. 
Mas sei, que mesmo hoje, neste mundo tão avançado, irão sofrer preconceito. Irão ser chamados de pretos, como se isso fosse uma grande ofensa. 
E no dia que me perguntarem porque é que os tratam assim eu responderei que não sei, porque quando olho para o pai deles apenas vejo o melhor sorriso do mundo. A pessoa mais carinhosa, estimulante e honesta. O único homem que faz o meu coração vacilar de emoção.
Jamais vi cor e jamais verei.