A ansiedade é um fardo. Quem vive com ela sabe como o nosso dia-a-dia é determinado pelas sensações que ela nos dá. Como simples tarefas e planos viram obstáculos enormes.
Para quem sofre de ansiedade sabe como é difícil manter os planos. Pessoalmente, adoro planear e programar as minhas actividades, e esquematizar na cabeça os meus dias. Isso faz-me sentir preparada e mais relaxada. No entanto, a ansiedade não segue um guião. E aparece quando lhe apetece, estragando planos e prospecções.
E se para nós, que sofremos com ela, é horrível, é também horrível para quem nos acompanha.
Para quem nos rodeia, principalmente para o nosso núcleo, por muito que se informem e tentem perceber, por vezes é complicado lidar com certas reacções.
Podia contar-vos dezenas de histórias que onde a ansiedade teve a palavra final nos meus planos e como isso ditou também os planos de quem me acompanhava, mas vou-vos contar uma que foi um dos momentos marcantes para me levar a procurar formas de controla-la.
Os meus pais sempre foram apreciadores de boa comida e visitar restaurantes era uma das nossas actividades favoritas. Havia pratos específicos que gostávamos de comer em determinado restaurante e gostávamos de partilhar-lho com amigos. Ora, uma das melhores vitelas no forno que comi na vida foi em um restaurante em Oliveira de Frades. O restaurante era mesmo muito bom e várias vezes levamos lá amigos. Sendo que a viagem para lá é feita através da serra, as paisagens são maravilhosas também.
A última vez que combinamos lá ir com um grupo de amigos, eu tive um dos maiores ataques de pânico que tive na vida.
O caminho pela serra é feito por estradas apertadas e com grandes ribanceiras e logo de manhã ao acordar e pensar que tinha de fazer esse caminho para chegar ao restaurante comecei a sentir os efeitos da ansiedade, que culminaram num ataque de pânico em frente a várias pessoas, que por muito que tentassem entender o que se passava, ainda hoje não conseguem e ainda "brincam" com o que se passou naquele dia. Ninguém foi ao restaurante nesse dia e escusado será dizer, que mesmo depois de muita terapia, muito trabalho feito, ainda não lá voltei.
Isto é apenas um episódio, dos muitos pelos quais passei. Os meus pais, agora o meu pai, o Eddie e os meus familiares mais próximos e amigos sabem com o que lido todos os dias. Sabem que as vezes não saiu para aquele sítio novo ou não vou a um concerto não é por má vontade, mas sim porque não consigo.
O Eddie sabe que tenho de planear para me sentir confortável mas que muitas vezes vou cancelar os planos e optar por algo que me deixe confortável, que conheça. E por muito que estejam do meu lado, que percebam, sei que pode ser um fardo. Um fardo que eu nunca quis ser mas que, mesmo depois de muito lutar, sei que sou.
Tenho a sorte de ter um companheiro que me faz desafiar os meus limites e está lá para me abraçar e dizer que o que estou a sentir é válido. Mas nem toda a gente entende e pior ainda, nem todos que sofrem de ansiedade têm alguém que lhes dê a mão.
O mundo não está preparado para lidar com este tipo de problema. Ainda é tratado com desdém e colocado, muitas vezes, num patamar de oportunidade e não de doença. Como se as pessoas com ansiedade a usassem para justificar muita coisa que não querem fazer. Quando é precisamente o contrário. A ansiedade prende-nos de conquistar o mundo e isso é o maior dos fardos.
Vou começar a falar mais do assunto. Da ansiedade, da depressão, da POC. É preciso falar mais, normalizar para resolver. Dar caras às doenças. Dar voz.
Espero que continuem aí para ler.



