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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Lutas da POC #4

Para um individuo com uma doença de ansiedade, como é a POC, o diagnóstico, além de exaustivo e excruciante para lá chegar, é libertador. Porque começas a perceber que afinal não és tudo o que durante anos tiveste medo de ser. E essa é a palavra, medo. Que aquele medo que te toldou toda a vida e vivias para esconder afinal é o resultado de algo maior que tu, que até agora não entendias. 

Mas até chegar ao diagnóstico podemos passar por imensas fases, algumas tão ridículas que, pessoalmente, me fazem rir actualmente.

Eu posso afirmar-me como uma acumuladora ligeira. Tenho demasiadas coisas e tenho muita dificuldade de me desfazer seja do que for. No entanto, houve uma altura na minha vida que nada disto era ligeiro.

Com 14/15 tinha uma colecção de jornais acumulada que fazia corar qualquer registo. 
Sendo que o desporto, especialmente o futebol, sempre foi uma grande paixão, era impossível para mim livrar-me de um jornal. Comprava A Bola todos os dias e era impensável desfazer-me do jornal depois de o ler. Assim comecei uma colecção gigante no meu quarto. 
Vivia numa ansiedade tão forte que os meus pais se desfizessem daquele monte de jornais que era a primeira coisa que verificava quando chegava a casa. E se notava que alguém lhes tinha mexido, o choro e a revolta era incontrolável. 
Aquele monte de jornais significava uma estabilidade emocional que além de não conseguir compreender, não me conseguia libertar.

Lembro-me perfeitamente de estar deitada na cama a encarar aquele monte de jornais e sentir uma angústia e uma vergonha imensa. Detestava o que eles significavam mas a pequena ideia de me desfazer daquele monte de informação era tão mais angustiante. 

Foi através da terapia que um dia percebi que o monte de jornais me fazia mal e que tinha de me desfazer deles. 
Lembro-me de sentir uma perda tão grande no momento que coloquei apenas um para a reciclagem que assumi naquele dia que não o conseguiria fazer. Então pedia ajuda.
Pedia aos meus pais para o fazerem por mim e enquanto tomava banho, o único lugar que ainda hoje me consegue relaxar suficientemente, eles levaram tudo.

Foi uma altura difícil, foram dias que vivi com uma verdadeira angústia. Até realizar que os jornais podiam trazer algum tipo de bichos para o meu quarto. 
Claro que apenas troquei uma ansiedade por outra mas nunca mais juntei nada do género em nenhum local da casa.

Hoje em dia consegui livrar-me deste tipo de acumulação, mas como já referi, tenho demasiadas coisas e sei bem porquê. Sinto-me segura ao tê-las. Sinto-me mais calma. 
E desfazer-me de algo cria ansiedade, cria angústia mas obrigo-me a fazê-lo para bem da minha sanidade.

Para quem tem este tipo de doença todos os dias é uma luta, mas quando começamos a conhecer o que temos e como funciona tudo se torna mais fácil. 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Lutas da POC #3


Uma doença, qualquer que seja, é sempre um peso enorme não só para quem a tem, mas para aquelas pessoas que a rodeiam (e que se importam).

Para o doente é algo muito pessoal, que falarei em qualquer outro dia, mas para aqueles que nos rodeiam pode ser uma prova dura de ultrapassar. Porque ora bem, a doença não é propriamente deles, logo não sentem o que o doente sente, muitas vezes nem percebem. No entanto conseguem sentir algo bastante poderoso, a impotência. Na grande maioria das doenças não há nada que os "outros" possam fazer, só esperar.
Cada um reage como sabe e pode, no meu caso, os meus três grandes pilares reagiram de maneira completamente diferente entre eles. 
Partindo do principio que todos se informaram do que era a POC temos as seguintes reacções:

A minha mãe, desvaloriza. Tenta relativizar qualquer crise, enchendo-me de assuntos e pequenos trabalhos para me distrair. Quando se apercebe que o meu estado não é o melhor, liga-me 50 vezes por dia com os assuntos mais remotos que consegue arranjar, sem nunca tocar no verdadeiro porque do meu estado.

O meu pai, panica. Basta estar mais apática, que pergunta-me 1250 vezes o que tenho, como me sinto, se preciso de alguma coisa, o que quero fazer. No fundo é um estado de solidariedade completa, se estou mal ele fica também.

O meu namorado, absorve a doença. Dos três foi o que fez a pesquisa mais profunda. Leu tudo o que conseguia e não me parou de fazer perguntas sobre o que sentia. Sabe detectar o meu estado apenas pela minha voz e não vale de nada tentar disfarçar. No meio de uma crise, faz da doença não a minha, mas a nossa. No entanto é também o mais implacável. Não há mimimi que lhe resista, com ele é reacção.

São realmente diferentes, mas são as pessoas que me ajudaram na pior altura, que me levantaram e que todos os dias me ajudam a ultrapassar esta visitante. Sem esta força, sem este acreditar a luta teria sido muito mais dura e complicada.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Lutas da POC #2


Gosto muito de cozinhar. O tempo que passo na cozinha a confeccionar os pratos que mais gosto é sempre um dos preferidos do dia. Mas sou um caos na cozinha. Porquê? Porque utilizo todos os utensílios a que tenho direito (um recipiente para cada alimento, nada de misturar), uso 50 colheres para provar um molho (isso de lavar e utilizar a mesma colher parece-me tão pouco higiénico) e lavo tudo ao extremo. Não sendo assim tão adepta de carne, o meu dilema são mesmo os vegetais e frutas. Eu adoro tudo o que a terra nos dá. Apenas não como beterraba porque sou alérgica e pêra porque odeio a textura. Tudo o resto adoro de paixão. A piada (not) está na forma como preparo tudo. Por exemplo, comer uma simples laranja é uma tarefa complexa. Primeiro lavo a casca da laranja, sim, porque não sei onde a laranja andou até chegar cá a casa. Descasco-a. Agora faço uma pausa para lavar as minhas mãos. Porque descascar uma laranja deixa-nos com uns sucos estranhos entre as unhas que têm de ser rapidamente limpos antes de secarem e ficarem uma meleca ainda maior. Depois de lavar as mãos, parto a laranja nos devidos gomos, tirando todos fios que lá estiverem. Lavo as mãos. Como a laranja. Lavo as mãos.

Outra coisa engraçada, e esta acho que é mesmo só mania (ou tento convencer-me que é), é o facto de literalmente puxar o lustro à fruta e vegetais antes de os comer ou confeccionar. Pois pego no meu paninho é vá de limpar até ficarem a brilhar.
Claro que hoje faço isto de maneira tão automática e própria que ninguém que me conhece dá muita importância, é simplesmente a minha maneira de fazer as coisas. Claro que há sempre uma amiga ou prima que implica um pouco, mas na minha cabeça não outra forma de fazer as coisas. 
Não ter tudo devidamente separado e limpo, muito limpo, é razão para os meus níveis de ansiedade subirem em flecha. Começo a imaginar os cenários catastróficos que podem ocorrer se as coisas não forem executadas à minha maneira, pelo menos quando sou eu a fazer as coisas.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Lutas da POC #1


Não me recordo de mim sem ter "manias". A verdade é que a parte maior do meu sofrimento com este transtorno vem das obsessões, estas sim são capazes de me derrubar. As compulsões são mais uma consequência. Algo que eu tento não fazer, mas que a Poc leva a melhor, quase sempre. A maior de todas é sem dúvida lavar as mãos. Eu sempre fui obcecada por lavar as mãos. Os meus pais contam que por volta dos 4/5 anos, se desaparecia por um segundo estava decerto a lavar as mãos. Deve ser por isso que gosto tanto de sabonetes.

Lavar as mãos acalma-me, relaxa-me, alivia-me. É a primeira coisa que faço quando acordo, quando me deito, quando saiu de casa, quando chego a casa. É por esta necessidade que detesto tocar em pessoas e objectos desconhecidos. Não quero dizer que sou daquelas pessoas que não tocam as outras. Bem, quer dizer isso mesmo. Se não conhecer a pessoa não a vou cumprimentar se puder evitar. Se for com os típicos beijinhos onde mal nos tocamos ainda consigo assentir, agora apertar a mão a alguém é uma batalha mental de proporções épicas. Eu não sei onde a pessoa andou com as mãos. Talvez tenha tossido. Talvez tenha colocado o dedo no nariz. Talvez tenha coçado o ouvido ou colocado o dedo em sítios menos próprios. Ou pior, pode estar suado. Tudo o que consigo imaginar naqueles milésimos de segundos me faz arrepiar e desejar sair a correr para dar uma lavagem de precaução nas minhas preciosas mãos. Mas os meus pais educaram-me bem e as vezes tenho de me sacrificar. Mas mal as mãos se tocam começo a fervilhar de ansiedade. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. Eu tenho de lavar as mãos. É assim que a minha cabeça começa a funcionar.
É claro que isto já me condicionou em algumas situações, algumas mais graves que outras. Lembro-me de uma vez na faculdade, num exame, onde passados meros 15 minutos depois de começar, ao colocar-me numa posição confortável, toquei em algo colado na borda da mesa. É claro que quando vi que era uma pastilha acho que até perdi o ar. Pedi encarecidamente ao meu professor para me deixar ir lavar as mãos, mas ele apenas olhou para o meu gel desinfectante (BFF ❤) em cima da mesa e deu-me um redondo "Não" como resposta. É assim, eu adoro gel desinfectante, mas não é a mesma coisa. Nada substituí água e sabão. Nada.
Conclusão, entreguei o exame que valia a nota do semestre 15 minutos depois de começar, simplesmente para ir lavar as mãos.
Mas convenhamos, existe alguma coisa melhor que umas mãos lavadinhas e a cheirar a limpo?