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quinta-feira, 6 de abril de 2017

A Alicia e a maquilhagem

Ponto um. Adoro maquilhagem. Ponto dois. Adoro a voz da Alicia Keys. Ponto três. Detesto hipocrisia. 

Se há coisa na vida que prezo é a liberdade. Posso estar completamente contra o argumento mas sou profundamente grata por ele estar lá. É no conflito de ideias que se geram grandes mudanças, necessárias, na sociedade.

O que eu não gosto mesmo nada é de argumentação desonesta. 
Vamos aos factos. 
Em Maio de 2016, Alicia Keys escreveu esta carta, que é maravilhosa. 
Começa por falar de momento que todas nós, mulheres, já passamos. Claro que ela, sendo quem é, teve uma exposição incrivelmente grande e a nível mundial, logo a pressão é na mesma escala. 
Eu percebo sinceramente o desabafo e acho a tomada de posição bastante poderosa.

O que me irrita é tudo o que vem depois. 
Sem contar com o facto desta tomada de posição ser tornada pública pouco antes da estreia do mais recente álbum (Coincidência?), muitas notícias foram conhecidas que deitaram por terra toda esta posição #nomakeup.

Começa pela maquilhadora dela partilhar os produtos de maquilhagem para o efeito #nomakeup e acaba com a recente entrevista de Adam Lavine onde diz que viu Alicia a ser maquilhada e quando questionada respondeu que fazia o que lhe apetecia. 

Começamos pelo fim. Ela tem todo o direito de fazer o que lhe apetece. Como qualquer um de nós. Mas como qualquer um de nós, no seu caso um pouco mais pela sua posição, tem também o dever de honrar as suas palavras. Ou pelo menos ter atenção ao que diz e como o diz.

Usar a hastag nomakeup não é o mesmo que dizer que usa menos maquilhagem. É assumir que não usa qualquer maquilhagem. E tudo o que daí advém.
Se há milhares de meninas que se sentem oprimidas pela beleza "fabricada" de tantas artistas mundiais vão ficar ainda pior com a "beleza nua". Porque uma coisa é assumirmos que as nossas imperfeições  e cara lavada. Outra, completamente diferente, é assumirmos uma coisa que não somos como verdade. Se digo que estou sem maquilhagem não posso usar pelos postiços para encher a sobrancelha ou hidratante com cor ou até uma caneta para marcar sardas. 
Porque isso tem um efeito ainda pior. Ao usarmos maquilhagem, além de todo o peso social e antropológico que tem, estamos a assumir que gostamos e queremos. E estamos a assumir também que a nossa cara, de uma forma ou de outra, tem uma camada que escolhemos colocar.
Agora se afirmo não a ter e mesmo assim fico com um visual saudável e bonito, que diga-se nem todas conseguimos de cara lavada, é levar todas essas meninas que se sentem inseguras com a sua imagem a sentir-se ainda pior.
Não estou, de todo, a fazer propaganda ao uso da maquilhagem, usa-a quem quer e ponto final, mas se queremos que meninas e mulheres se sintam bem na sua pele lavada e com imperfeições, não podemos lutar por essa causa com hidratantes de cor. 


É verdade que em Janeiro a Alicia Keys veio desdizer toda a campanha #nomakeup dizendo que não é escrava da maquilhagem assim como não pode ser da não maquilhagem. Eu concordo, mas quando meses antes disse algo como "I hope to God it's a revolution. 'Cause I don't want to cover up anymore. Not my face, not my mind, not my soul, not my thoughts, not my dreams, not my struggles, not my emotional growth. Nothing.", a coisa fica um pouco confusa.


Acho maravilhoso que possamos ser o que quisermos, maquilhadas ou não, mas usar um discurso tão poderoso e depois contradizê-lo com as próprias acções, deixa-me tão irritada. 


Adenda: Depois de ter escrito o texto vi esta noticia. Na prática, tudo o que quero dizer. Ser sincero é tão melhor. 

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Mudar de sonhos

Desde criança, sempre fui decidida e focada. Sabia o que queria, quando queria e como queria. E ia lá e fazia. 
Sempre fui muito convicta dos meus ideais e sempre os defendi com argumentos válidos.
Sempre soube o que queria ser no mundo. Até que chegou o dia que deixei de saber.

Acho que todos, quando mais novos, construímos uma imagem daquilo que vamos ser. A minha foi construída a partir daquilo que eu acreditava que fazia a diferença. Eu queria ser "poderosa" para poder ajudar mas também por um regozijo pessoal. Queria ser a senhora durona. Porque acreditava que era assim que as mulheres tinham de ser para serem vistas longe do papel mãe/dona de casa.

Quando cresci, tudo mudou. Porque, não só percebi que o "poder" é superestimado, mas também percebi que a verdadeira realização vem do que nos faz feliz e não do combater incessante da sociedade. 

Eu não nasci para ser dona de casa. É um facto e não há como negar. Mas ao contrário do que sempre sonhei, hoje acredito que nasci para ser mãe. 
Sempre quis ter um trabalho de relevo, reconhecido. Hoje acredito que o verdadeiro bem que quero fazer é melhor feito dos bastidores.
Sempre sonhei ter um trabalho muito bem remunerado e só isso me iria ajudar a ser verdadeiramente feliz. Hoje sei que o dinheiro é apenas uma parte muito pequena da felicidade. Que podemos ser realizadas e felizes com pouco.

Hoje sei que os sonhos mudam ao mesmo tempo que crescemos. E ainda bem.